Carlos Vilalba


UM SÓ PRESENTE

 ***

 

Em um só presente

Ausenta-se da duração

O poeta.

Em uma sala

De ampla vista por sobre o mar:

Dois pianos

Oito mãos

Vinte horas

Uma mesa

Cem folhas

Um poema por escrever

Um título:

   Marinheiros com asas de barco.

O poeta

A Odisseia

Dez cantos

As mil armas e os mil barões

Os três milhões que não sabiam ler

O poema por escrever.

Seiscentos e cinquenta anos

Soletrando:

Esta é a ditosa pátria minha amada.

Dez milhões por cumprir.

 

***

 

Num fundo sonoro de um piano pianíssimo

Ficamos a sós com o nosso olhar.

 

* * * 

 

Em um hoje

Muito exterior à duração

 Um espaço esperando gotejamentos do espírito

Da janela aberta

Saem e esvoaçam no ar

Do vento marinho

Folhas alvas

Sem tinta sem dor nem amor.

Rasgando a duração o poeta

Entra na sala.

 

***

 

Cai uma folha na mesa

Mãos diligentes a tomam

Não é o poema.

 

***

 

 

 

Poema "Um só presente" de Carlos Miguel

Que Azul tão azul tinha ali o azul do céu

Fernando Pessoa

Não sei, ama, onde era,

 

 

Não sei, ama, onde era,

Nunca o saberei...

Sei que era Primavera

E o jardim do rei...

(Filha, quem o soubera!...).

Que azul tão azul tinha

Ali o azul do céu!

Se eu não era a rainha,

Porque era tudo meu?

(Filha, quem o adivinha?).

E o jardim tinha flores

De que não me sei lembrar...

Flores de tantas cores...

Penso e fico a chorar...

(Filha, os sonhos são dores...).

Qualquer dia viria

Qualquer coisa a fazer

Toda aquela alegria

Mais alegria nascer

(Filha, o resto é morrer...).

Conta-me contos, ama...

Todos os contos são

Esse dia, e jardim e a dama 

Que eu fui nessa solidão.

 

 

Fernando Pessoa.